CLARISSA
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quarta-feira, junho 01, 2005

As origens do mundo, da humanidade e do Afonso - VI / VII

Pois é,

Um PAS (post ante scriptum, se é que isso existe): acabo de chegar do aniversário do Gejfin. Presentes, dentre os inúmeros desconhecidos, os grandes mestres: Thiagón, Milton Ribeiro e o Diego.

Apesar de ser o aniversário do Gejfin, sinti-me homenageado por poder estar presente junto a eles. Grande Gejfin. Grande pessoa. Como era aniversário, fiquei devendo o embate sobre os líquidos. Meu presente é te dizer que sou feliz por ter te conhecido. E por dizer aqui, em público, que muito já cresci por tua culpa!.

"Mas continuemos, como diria Honório Lemos" (dito gauchesco). Estamos quase no fim. Só mais um pouquim! (Sorry, Gejfin, mas tem coisas que não consigo contar em posts curtos. Quem sabe um dia eu aprenda).

"Deus, disse: 'Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra'.

Deus criou o homem à sua imagem,
à imagem de Deus ele o criou,
homem e mulher ele os criou.

Deus os abençoou e lhes disse: 'Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra.' Deus disse: 'Eu vou dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas' e assim se fez. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia
."

Multipliquei-me, em estrita obediência ao Senhor. Quanto ao domínio sobre a terra? Bom, se nem a minha mulher domino, que dirá o resto!

Vi minha filha antes dela nascer. Aliás, antes de ser concebida. Certo dia estávamos sentados na sala de estar, eu e a mãe dela, quando, ao olhar para seu rosto, vi algo que me surpreendeu: havia outro rosto ali. Saltei assustado! Ainda tentei convesar e explicar o que tinha visto. Claro que ela riu: "que bobagem é essa, Luiz (ela me chamava de Luiz, nome que detesto até hoje), não tem mais ninguém aqui!". Um ano depois vi qual rosto era. Ela havia se mostrado para mim, como a dizer: "tu serás meu pai, eu te escolhi!". Linda, como lindos são todos os filhos.

Um mês antes da data prevista para o nascimento, o gineco-obstetra resolveu fazer uma especialização na Itália. "Fiquem tranqüilos. Tem um colega que vai seguir com todas as minhas pacientes como se fosse eu". Oito meses nos acompanhando e, na última hora, resolveu "sartar fora do barco". (Ah, o mundo dá voltas. Não é que hoje - quinze anos passados, fomos recomendados para fazer um exame com um médico e, advinha qual era o médico?).

Não existe essa de alguém fazer as coisas como eu faria. Só eu faço como eu faço. [pequeno aparte que tenho que contar: a Kaya foi deitar. Fui lá dar boa noite. Encostei o rosto na barriga dela. Advinhem? A Clarissa deu dois pontapés em mim! Ela sabe quem eu sou! "Sai,Chato, sai. Eu quero dormir! rsrsr].

Ficamos sem médico. Tudo bem, falei. Na hora a gente vai para o hospital e dá um jeito. Dito e feito. Terça-feira, 6 de março de 1990, uma semana passada da data prevista. Duas da tarde e, "Afonso, tem uma coisa diferente saindo..." Pega o que der e vamos pro hospital, falei e já saí correndo pro carro. Chegando lá, conversa daqui, conversa dali; paguei o "por fora", mesmo tendo convênio e ficamos esperando.

Cinco e meia da tarde, tudo pronto. Eu, vestido a caráter, com a câmara nas mãos. Tinha que filmar. Afinal, a primeira vez a gente nunca esquece, desde que filme!

Corta daqui; corta dali, e corta a perna da miha filha. Incompetente no corte, era também incompetente no resto. Parada cárdiorespiratória. Eu filmando sem poder fazer nada. Colocam minha filha nas mãos de quem, na hora, eu achava que era o pediátra. Nada. Aperta daqui, dali, respiração boca-a-boca e nada... Colocam num respiradouro artificial. Eu filmando. Talvez tenha aprendido, com meu pai (post anterior) a impassividade diante da morte.

Novamente não sabia o que fazer. Pela segunda vez tive que mentir sobre a morte. Voltei para a sala de parto e disse para a mãe: "está tudo bem, fica tranqüila". Repeti o que haviam me ensinado quando tinha quinze anos. Subi para o quarto e fiquei sozinho. Dessa vez não agüentei. Liguei para meu irmão: "vem pra cá que a Fernanda nasceu e ... não sei o que houve!". Uma hora depois ele chegou, tazendo minha mãe.

Não tive coragem. Pedi a ele que fosse lá ver o que realmente tinha acontecido. Todas as noites havia conversado com ela. Ela me avisou que nasceria. Eu a esperava, mais que a tudo. Mas a vida é cíclica e nos ensina. Meu irmão olhou para mim e disse: "Seja homem! Vai lá e vê tu mesmo o que aconteceu!". De "homenzinho da casa", virei "homem da casa". De ter beijado meu pai morto, teria que, talvez, beijar minha filha morta!.

Talvez tenha revivido o que meus pais sentiram quando minha irmã morreu aos onze meses. Desci, degrau por degrau, com vontade de subir, de fugir. Encontrei a enfermeira e ela, vendo minha expressão, falou, antes de qualquer pergunta minha:" está viva; mal, mas está viva!". E vive, e viverá todos os dias que lhe tenham sido dados.

Depois de algumas peripécias, que não vêm ao caso, consegui levar minha filha para um hospital que tinha UTI neonatal (descobri que o hospital, onde ela nasceu, não tinha UTI, mas isso é outra istória).

Ali, pela primeira vez, depois de cinco dias, finalmente toquei na minha filha. E pude beijá-la: não morta, mas viva.

A vida talvez tenha me tornado incapaz de entendê-la. Mas, ali, eu recuperei minhã manhã perdida. E multipliquei-me, conforme o mandamento. E vi que isso era bom. E tive, novamente, uma tarde e uma manhã, no meu sexto dia.